O contato com áreas verdes — ou Green Zones, como o termo aparece em diferentes
contextos internacionais ligados à sustentabilidade, ao planejamento urbano e à
participação cidadã — faz bem para o ser humano em qualquer idade.
Não é uma invenção de poeta, embora os poetas tenham entendido isso antes dos relatórios. A Organização Mundial da Saúde aponta que espaços verdes urbanos podem promover saúde física e mental, aliviar o estresse, estimular a coesão social, apoiar a prática de atividade física e reduzir a exposição a poluição, ruído e calor excessivo. Um estudo publicado na revista Scientific Reports também associou o contato semanal com ambientes naturais, especialmente a partir de 120 minutos por semana, a melhores indicadores autorrelatados
de saúde e bem-estar.
Não estamos dizendo que árvore substitui médico, remédio, fisioterapia ou bom senso. Não substitui. Mas ajuda. E, convenhamos, em tempos tão barulhentos, ansiosos e entupidos de tela, qualquer ajuda honesta já merece respeito.
Para pessoas idosas, esse contato pode ser ainda mais importante porque envelhecer também traz perdas. Perde-se força, equilíbrio, agilidade, visão, audição, massa muscular, confiança e, em alguns casos, companhia. Diferentemente do vinho, quanto mais velho eu fico, melhor eu era. Essa é a triste verdade. A boa notícia é que movimento ajuda.

A Organização Mundial da Saúde recomenda que pessoas com 65 anos ou mais pratiquem ao menos 150 minutos semanais de atividade física moderada, além de atividades de fortalecimento muscular e exercícios de equilíbrio, especialmente para quem tem mobilidade reduzida. Caminhar em um parque, fazer uma trilha leve, entrar no mar com segurança, pedalar devagar, acompanhar um grupo de observação de aves ou
simplesmente andar por uma praça arborizada pode ser uma forma prazerosa de cumprir parte dessa necessidade sem transformar saúde em penitência.
Há ainda o lado mental e social. A Pesquisa Nacional de Saúde 2019, do IBGE, mostrou que 10,2% das pessoas de 18 anos ou mais receberam diagnóstico de depressão por profissional de saúde mental, o equivalente a 16,3 milhões de pessoas naquele ano. A solidão, o isolamento, a perda de vínculos e a redução do convívio social são temas sérios entre pessoas idosas.
O turismo de natureza, quando bem organizado, pode oferecer algo que não cabe numa planilha de vendas: encontro. Encontro com outras pessoas, com o próprio corpo, com a memória, com a paisagem, com o silêncio e até com aquela criança interna que, se a gente der chance, ainda quer entrar na água, subir numa pedra, comer fruta no caminho e voltar para casa com terra no tênis.

Em alguns países, essa relação entre natureza e saúde já aparece de maneira institucional. No Canadá, por exemplo, o programa PaRx — A Prescription for Nature permite que profissionais de saúde prescrevam tempo na natureza e, em alguns casos, até passes de acesso a áreas administradas pela Parks Canada. É a chamada prescrição de natureza.
Por aqui, eu diria que temos algo ainda mais poderoso: o Brasil é uma farmácia natural a céu aberto, uma extravagância de biomas, águas, serras, florestas, campos, chapadas, restingas, praias, rios, cachoeiras e parques. O problema é que, muitas vezes, tratamos essa farmácia como se fosse estoque infinito de prateleira bagunçada. Não é.
E este é outro ponto essencial. Defender o acesso das pessoas idosas à natureza não significa defender que qualquer pessoa entre em qualquer lugar de qualquer jeito. Ambiente natural não é cenário vazio esperando turista. É casa de bicho, de planta, de fungo, de água, de vida. Existem áreas que devem ser de uso público, bem manejadas, bem cuidadas e bem preparadas para receber pessoas com diferentes perfis. E existem áreas que devem ter restrição de acesso, justamente para proteger a vida silvestre, o silêncio da floresta, os
ciclos naturais e aquilo que não existe para servir ao nosso umbigo.
Multidão é multidão em qualquer idade. Quando a visitação perde limite, a natureza deixa de ser natureza e vira fila, lixo, barulho e acidente. Por isso, o desafio do turismo de natureza para pessoas 60+ não é apenas criar produto. É criar produto com responsabilidade. É pensar no acesso sem destruir o encanto. É construir
infraestrutura onde ela é necessária e preservar a rusticidade onde ela faz sentido. É oferecer trilhas com diferentes graus de dificuldade, informação clara, condutores preparados, protocolos de segurança, tempo adequado, pausas reais, comunicação honesta e respeito aos limites de cada visitante. Não adianta vender “experiência leve” e entregar subida escorregadia, banheiro impossível, letra miúda, sombra nenhuma e guia
com pressa. A idade não perdoa propaganda enganosa. Aliás, ninguém deveria perdoar.
Também é preciso lembrar que acessibilidade não é uma conversa paralela. Ela está no centro do futuro do turismo. Segundo a Pesquisa Nacional de Saúde 2019, um em cada quatro idosos no Brasil tinha algum tipo de deficiência. O Censo 2022 também mostrou que a proporção de pessoas com deficiência cresce com a idade, chegando a 27,5% entre pessoas com 70 anos ou mais, segundo dados divulgados pelo IBGE. Logo, quando
falamos em turismo para pessoas idosas, falamos necessariamente de acessibilidade, mobilidade, segurança e desenho universal. Não como burocracia, mas como hospitalidade.
A ABETA, que desde 2004 reúne empresas de ecoturismo e turismo de aventura comprometidas com profissionalismo, diversão segura, preservação ambiental, sustentabilidade e vida ao ar livre, tem uma responsabilidade importante nessa conversa.
Não porque o turismo de natureza deva virar turismo geriátrico, Deus nos livre de mais um rótulo ruim, mas porque a vida ao ar livre precisa ser para muitos corpos, muitas idades e muitos ritmos. Entre fundadores, associados, conselheiros, condutores, empresários e entusiastas da aventura no Brasil, há muita gente que já passou da casa dos 60 e segue caminhando, mergulhando, pedalando, remando, viajando, abrindo trilha e dando trabalho.
Ainda bem.
Por Luiz Del Vigna
