InícioGuia práticoAlém do lazer: viajar após os 50 é questão de auto cuidado

Além do lazer: viajar após os 50 é questão de auto cuidado

Mais do que turismo, novas experiências têm sido encaradas por mulheres maduras como ferramenta de bem-estar emocional, autonomia e reconexão consigo mesmas — e a ciência ajuda a explicar por quê

Durante décadas, muitas mulheres aprenderam a adiar desejos.

Primeiro os filhos. Depois a carreira. Depois a casa, os compromissos, a rotina e todo mundo ao redor. Até que, em algum momento, surge uma pergunta silenciosa: e eu?

Para um número crescente de mulheres acima dos 50 anos, a resposta tem vindo em forma de passaporte.

Mais do que uma tendência de turismo, especialistas observam um movimento emocional e comportamental: mulheres que, após décadas dedicadas ao cuidado com os outros, começam a escolher experiências que promovem prazer, autonomia e reconexão com a própria identidade.

Segundo Meg Getz, especialista em turismo internacional com mais de 40 anos de experiência acompanhando o comportamento de viajantes e atualmente radicada nos Estados Unidos, o que mudou não foi apenas o destino escolhido, mas a intenção por trás da viagem.

“É muito comum ouvir delas: ‘agora é a minha vez’. Elas não querem mais ver tudo. Querem sentir. Querem viver a experiência sem pressa, sem culpa e sem a obrigação de cumprir um roteiro”, afirma.

O cérebro também gosta de novidades

E talvez isso faça mais sentido do que parece. Não é só impressão. A ciência ajuda a explicar esse movimento.

Um artigo publicado na revista científica Nature Reviews Neuroscience aponta que a exposição a novidades, ambientes diferentes e novos aprendizados estimula a neuroplasticidade — capacidade do cérebro de criar novas conexões ao longo da vida. Em outras palavras: experimentar o novo não alimenta apenas a alma; também desafia positivamente o cérebro.

Além disso, experiências prazerosas associadas à antecipação positiva — como planejar uma viagem — costumam impactar o bem-estar emocional, reduzindo o estresse e aumentando sensações ligadas à motivação, prazer e recompensa.

Viajar também é uma experiência para o cérebro

A sensação de bem-estar experimentada durante uma viagem não acontece apenas porque estamos longe da rotina. Ela envolve mecanismos importantes relacionados à memória, à emoção, à aprendizagem e ao sistema de recompensa cerebral.

Segundo o Dr. Gustavo Gattino, doutor em Saúde da Criança e do Adolescente, professor associado da Universidade de Aalborg (Dinamarca), pesquisador da relação entre música, cérebro, saúde mental e qualidade de vida, experiências novas estimulam diferentes sistemas cerebrais simultaneamente.

“Quando viajamos, ativamos regiões ligadas à memória, como o hipocampo, estruturas relacionadas às emoções, como a amígdala, além de circuitos associados à motivação, recompensa e prazer. O cérebro humano foi construído para aprender, explorar e atribuir significado às experiências”, explica.

Segundo o pesquisador, um dos aspectos mais interessantes das viagens é justamente a capacidade de criar novas conexões neurais e, ao mesmo tempo, reativar memórias já existentes.

“Quando visitamos um lugar novo, experimentamos sabores, sons, paisagens e interações sociais diferentes. Tudo isso contribui para a chamada neuroplasticidade, que é a capacidade do cérebro de criar e reorganizar conexões ao longo da vida.”

A música, inclusive, pode desempenhar um papel importante nesse processo.

“Muitas pessoas associam determinadas viagens a músicas específicas. Basta ouvir novamente aquela canção para reativar não apenas a lembrança do lugar, mas também emoções, sensações corporais e experiências vividas naquele contexto. O cérebro não armazena memórias de forma isolada; ele constrói redes de experiências”, afirma.

Para Gustavo, esse aspecto ajuda a explicar por que tantas mulheres relatam uma sensação de transformação após determinadas viagens.

“Viajar pode representar autonomia, descoberta, pertencimento e prazer. Do ponto de vista da saúde mental, essas experiências podem favorecer autoestima, bem-estar emocional, redução do estresse e sensação de propósito.”

Quando autocuidado deixa de ser estética e vira escolha

Durante muito tempo, o autocuidado feminino foi vendido quase exclusivamente como estética: um creme, um ritual de beleza, uma pausa breve entre tarefas.

Mas autocuidado também pode ser decisão. Pode ser dizer sim a algo novo. Pode ser ocupar espaço. Pode ser fazer uma mala sem pedir permissão emocional para ninguém.

“Vejo muitas mulheres redescobrindo a leveza. Algumas viajam sozinhas pela primeira vez. Outras viajam com amigas. Outras simplesmente querem viver algo que sempre adiaram”, conta Meg.

E, curiosamente, nem sempre essa transformação está nos destinos mais óbvios, mas justamente nas experiências que permitem desacelerar e sentir.

Em Nova York, por exemplo, muitas brasileiras têm descoberto um outro ritmo. Há quem troque a intensidade de Manhattan por um dia entre vinícolas nos arredores da cidade, em Long Island, onde espumantes premiados, paisagens abertas e conversas sem pressa criam uma experiência mais contemplativa e sensorial.

Outras se permitem redescobrir o encantamento ao visitar o Belvedere Castle, escondido dentro do Central Park. Com arquitetura que remete a contos de fadas e uma vista privilegiada da cidade, o espaço oferece uma pausa inesperada — quase simbólica — em meio à correria urbana.

E há ainda quem encontre nos campos de lavanda, em plena floração durante o verão, uma experiência sensorial rara: caminhar entre tons de roxo, sentir o aroma suave no ar e se desconectar completamente do ritmo acelerado do cotidiano.

“Essas experiências se conectam muito com esse momento da vida. Não é sobre fazer mais, é sobre sentir melhor”, resume Meg.

Uma escolha que também é emocional

Para a empresária Gisele Mascarenhas, de 63 anos, viajar deixou de ser apenas lazer e passou a representar uma forma concreta de autocuidado.

Ela conta que foi por volta dos 50 anos que percebeu que, depois de décadas dedicadas prioritariamente à família, precisava também voltar a olhar para si mesma.

“Minhas prioridades sempre foram minhas filhas. Eu parei de trabalhar para me dedicar a elas, levar, buscar, cuidar. Depois que elas cresceram, comecei a entender que também precisava me colocar no centro das minhas escolhas”, relata.

A experiência que mais simboliza essa transformação aconteceu no ano passado, durante uma viagem a Portugal. Ao lado da irmã, percorreu Lisboa, Porto, Fátima, Cascais e Sintra, sem maridos, filhos ou compromissos além daqueles que elas próprias decidiram assumir.

“Foi uma viagem maravilhosa. Aproveitamos muito. Decidíamos tudo. Não tinha ninguém para dar satisfação. Foi uma sensação de liberdade que eu nunca tinha experimentado daquela forma”, conta.

Segundo Gisele, viajar passou a representar algo maior do que conhecer novos lugares. Tornou-se uma oportunidade de recuperar tempo, autonomia e bem-estar emocional.

“Essa viagem mudou muito minha autoestima e minha sensação de liberdade. É você ter tempo para você mesma, sem ficar pensando no que os outros vão achar. É poder escolher o que fazer, onde ir, o que comer. É uma sensação muito boa.”

Hoje, ela deixa um conselho para outras mulheres que passaram boa parte da vida cuidando dos outros:

“Viajem enquanto tiverem saúde. Não adianta ter dinheiro e maturidade se não tiver saúde para viver essas experiências. Cuidar de si também é uma forma de amor.”

Fontes:

Meg Getz é especialista em turismo internacional, com mais de 40 anos de experiência no setor. Atualmente vive nos Estados Unidos, onde atua com planejamento de viagens e criação de roteiros personalizados para brasileiros.

Dr. Gustavo Gattino é doutor em Saúde da Criança e do Adolescente, professor associado da Universidade de Aalborg (Dinamarca), pesquisador, palestrante, atua com foco em música, cérebro, saúde mental, regulação emocional, qualidade de vida e neurodesenvolvimento.

Gisele Mascarenhas, 63 anos, é empresáriaEm 2024, realizou uma viagem transformadora por Portugal ao lado da irmã, visitando Lisboa, Porto, Fátima, Cascais e Sintra, experiência que descreve como um marco de liberdade e redescoberta pessoal.

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