
A pergunta de partida era simples. O que o maior evento de comércio eletrônico da América Latina teria a dizer sobre a inclusão digital 60+? Essa pergunta importa porque o Brasil já tinha 34,1 milhões de pessoas com 60 anos ou mais em 2024. O salto foi de 53,3% em relação a 2012, segundo o IBGE.
A Revista Melhor Viagem 60+ cobriu o Fórum E-Commerce Brasil 2025, realizado entre 29 e 31 de julho no Distrito Anhembi, em São Paulo. Apuramos a programação oficial, os discursos registrados e a cobertura de veículos especializados. Não localizamos, até a data desta matéria, nenhuma trilha, painel ou masterclass dedicada formalmente à inclusão digital da população madura.
O que o Fórum efetivamente discutiu
A 16ª edição do Fórum reuniu, segundo a organização, cerca de 30 mil participantes presenciais, 300 empresas expositoras e 600 palestrantes. Ao todo, foram mais de 40 trilhas de conteúdo. Empresas como Google, Amazon, Meta, Mercado Livre, TikTok, Magalu, Shein, Riachuelo, Casas Bahia e Nubank confirmaram presença.
A programação se organizou em quatro plenárias centrais: Marketing & Vendas, Gestão & Operações, Tecnologia & Inovação e Marketplace. Os palcos priorizaram inteligência artificial generativa, machine learning aplicado à jornada de compra, orquestração omnichannel, logística preditiva, privacidade por padrão e o futuro do checkout. Bruno Pati, CEO do E-Commerce Brasil, definiu a edição de 2025 como uma mudança estrutural. Para ele, o setor passa a entender de outra forma seu papel na economia digital.
Um eixo mais filosófico, com Clóvis de Barros Filho, Monja Coen e Murilo Gun, ampliou a discussão para ética, atenção e propósito. Nenhum desses registros — oficiais ou de imprensa especializada — menciona barreiras etárias de acesso à tecnologia. Também não há referência a programas de capacitação para inclusão digital da população madura ou a estratégias de e-commerce voltadas à economia prateada.
O tamanho do público que ficou de fora da pauta
A ausência do tema chama atenção pelo tamanho do fenômeno que ele deixa de fora. O Brasil tinha 34,1 milhões de pessoas com 60 anos ou mais em 2024. O aumento foi de 53,3% frente a 2012, segundo a Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (Pnad) Contínua do IBGE.
Esse público já movimenta cerca de R$ 2 trilhões por ano na economia brasileira, segundo levantamento da consultoria Data8 — como consumidores e como empreendedores da chamada economia prateada. É um tema que esta revista acompanha de perto. O Sebrae reforça que esse público responde por 23% do consumo de bens e serviços no país, com renda anual estimada em R$ 940 bilhões.
Dados oficiais reforçam o tamanho do problema de acesso. O suplemento sobre Tecnologia da Informação e Comunicação da Pnad Contínua, divulgado pelo IBGE em 24 de julho de 2025, mostra que 52,1% das pessoas que não usaram a internet em 2024 eram idosas. Entre elas, 66,1% apontaram não saber usar a tecnologia como principal motivo.
Ainda segundo o IBGE, a proporção de idosos conectados à internet saltou de 44,8%, em 2019, para 69,4% em 2024 — um avanço expressivo, que representa cerca de 11 milhões de novos usuários idosos no período. Mesmo assim, cerca de 30% dessa população segue fora da rede. A vulnerabilidade digital desse grupo — exclusão de serviços essenciais, dificuldade de uso de aplicativos como o do INSS, exposição a golpes digitais contra o viajante 60+, tema que já abordamos aqui — já é tratada como questão de saúde física e mental, não apenas de conveniência tecnológica. Além disso os programas de inclusão digital 60+ da pessoa idosa ainda são insuficientes; é necessário investimento urgente.
Onde havia ponte possível para a inclusão digital 60+ — e ela não apareceu
Alguns conteúdos do Fórum 2025 dialogam, em tese, com as necessidades do consumidor 60+. Mas nenhum palestrante ou organizador apresentou esses conteúdos com esse recorte etário em mente. A programação destacou a discussão sobre personalização, dados e fidelização — a mesma ferramenta que poderia tornar uma loja virtual mais acessível a um usuário com menor familiaridade digital. A organização, porém, tratou o tema como estratégia de conversão e retenção, não como inclusão.
O mesmo vale para a discussão sobre omnichannel, apresentada como estratégia para integrar canais físicos e digitais em torno da experiência do cliente. Essa integração também forma a ponte mais natural para o consumidor maduro, que com frequência começa a relação com uma marca no balcão e migra aos poucos para o digital. Esse recorte, porém, não apareceu nas falas registradas: o foco ficou em conversão e eficiência operacional, não em acessibilidade geracional.
Por que a inclusão digital 60+ interessa a quem empreende no digital
O Fórum E-Commerce Brasil não é um evento de assistência social: é um evento de negócios, voltado a quem vende, compra mídia e constrói operação digital. Por isso, a inclusão digital 60+ também é uma pauta de mercado de trabalho e empreendedorismo — não só de acessibilidade ao consumidor.
O Brasil tem hoje 4,5 milhões de empreendedores com 60 anos ou mais, segundo o Sebrae Nacional, um crescimento de 58,6% na última década. Esse grupo já responde por 14,8% do total de 30,3 milhões de empreendedores do país. Em paralelo, o programa Empreendedorismo Sênior 60+ do Sebrae já atendeu cerca de 869 mil pessoas em 2025.
Esse avanço, porém, esconde uma fragilidade que toca diretamente o e-commerce: 70,9% desses empreendedores seguem na informalidade, e apenas 29,1% têm CNPJ ativo, segundo o levantamento do Sebrae com base na Pnad Contínua. A contribuição ao INSS chega a apenas 31% do grupo. Formalizar um negócio, abrir uma conta empresarial, cadastrar uma loja em marketplace ou configurar um checkout online são justamente as barreiras técnicas em que a falta de letramento digital mais pesa — e são também os temas centrais da programação do próprio Fórum.
Etarismo no mercado de trabalho
O etarismo no mercado de trabalho formal aparece como motor desse movimento. Segundo a pesquisadora Janaína Feijó, do Instituto Brasileiro de Economia da FGV (Ibre/FGV), a discriminação por idade dificulta a permanência dos 60+ em empregos com carteira assinada, o que empurra parte desse público para o empreendedorismo por necessidade — muitas vezes sem o preparo técnico para competir num ambiente já dominado por marketplaces, mídia programática e automação.
Os números do mercado de trabalho confirmam que esse público segue ativo e produtivo: o nível de ocupação entre os 60+ foi de 24,4% em 2024, segundo a Síntese de Indicadores Sociais do IBGE, sendo 34,2% entre os homens e 16,7% entre as mulheres. O rendimento-hora desse grupo (R$ 25,60) chegou a ser quase o dobro do rendimento-hora dos jovens de 14 a 29 anos (R$ 13,30) — um sinal de que a experiência acumulada tem valor de mercado, mesmo quando o canal digital para vender essa experiência ainda é uma barreira.
Ou seja: o público que o Fórum deixou de fora não é apenas um consumidor que precisa de ajuda para concluir uma compra. É também um empreendedor em crescimento, gerando 14,8% dos negócios do país, que precisa exatamente do conteúdo técnico que o evento oferece — marketplace, checkout, dados, omnichannel — mas sem o letramento digital pressuposto na forma como esse conteúdo é apresentado.
Uma lacuna que também é notícia
Como jornalistas, não cabe a nós inventar uma palestra que não existiu, nem forçar uma citação a dizer algo que ela não disse. Por isso, esta reportagem não apresenta um relato de como o Fórum tratou a inclusão digital 60+. Apresentamos, em vez disso, um retrato fiel do que o evento discutiu: inteligência artificial, dados, omnichannel, marketplace, checkout. E mostramos a distância entre essa pauta e um público que já soma 34,1 milhões de brasileiros.
Essa lacuna não é exclusividade do Fórum E-Commerce Brasil. Ela aparece, de forma recorrente, em boa parte do circuito de eventos de varejo digital e empreendedorismo no país. Normalmente, fóruns específicos de longevidade tratam o tema separadamente, em iniciativas pontuais e mais restritas em alcance. Na prática, o público que mais cresce em poder de consumo segue sem assento nos palcos onde o comércio eletrônico brasileiro decide seu futuro técnico.
Fica, portanto, o convite para a próxima edição: enquanto o setor discute inteligência artificial , falta no uma pergunta sobre quem, hoje, ainda não consegue concluir uma compra online sozinho.
Fontes Organização do Fórum E-Commerce Brasil 2025 e cobertura de imprensa especializada (CNDL/Varejo S.A., DIVIA Marketing Digital, Agência E-Commerce Brasil); Pnad Contínua — Tecnologia da Informação e Comunicação 2024, IBGE, divulgada em 24 de julho de 2025; Pnad Contínua — Síntese de Indicadores Sociais, IBGE; Sebrae Nacional, levantamento sobre empreendedorismo 60+ com base na Pnad Contínua Trimestral; Instituto Brasileiro de Economia da FGV (Ibre/FGV); dados de mercado da consultoria Data8. Apuração realizada sem acesso a gravações completas das palestras, com base em registros públicos da programação, releases oficiais e coberturas jornalísticas disponíveis até a data desta matéria.