Um dia, numa reunião qualquer, dessas em que a gente fala de trabalho, de turismo, de mercado, de vida e de outras encrencas que aparecem no pacote, fiz uma piada meio depreciativa sobre envelhecer. Alguma coisa na linha “velho é uma desgraça com tecnologia”, dessas bobagens que a gente fala rindo, mas que carregam mais preconceito do que parece. Foi quando uma jovem, com delicadeza e firmeza, me deu uma das melhores broncas que já recebi: “Seu Luiz, o senhor não deveria dizer isso. Todo idoso é um jovem sobrevivente.”
Nunca mais esqueci. Porque é isso mesmo. Para virar velho, antes de qualquer coisa, é preciso sobreviver. Sobreviver à infância, à juventude, aos tombos, às febres, aos amores errados, às estradas ruins, aos carros sem freio, às decisões imbecis, às noites mal dormidas, aos excessos, aos sustos e, no meu caso, a mais algumas proezas que prefiro não listar com riqueza de detalhes para não produzir provas contra mim mesmo. Envelhecer, no fundo, é uma medalha. Às vezes enferrujada, às vezes com dor no joelho, às vezes esquecida em alguma gaveta, mas uma medalha.
Segundo o IBGE, a expectativa de vida no Brasil chegou a 76,6 anos em 2024. Estamos vivendo mais. E viver mais muda tudo. Muda a família, muda a cidade, muda o trabalho, muda o lazer, muda o turismo. Não estamos falando de um pequeno grupo simpático esperando o tempo passar na varanda. Estamos falando de milhões de pessoas com história, renda, desejo, memória, curiosidade, tempo disponível em muitos casos e, sobretudo, vontade de continuar vivendo. Às vezes mais devagar, é verdade. Mas devagar não é parado. Devagar também chega. E, muitas vezes, vê melhor a paisagem.
O turismo precisa entender isso com seriedade. O público acima dos 60 anos não é uma curiosidade estatística nem um nicho fofo para campanha de Dia dos Avós. É um público diverso, crescente e cada vez mais ativo, embora com demandas específicas. O Ministério do Turismo tem reforçado a importância de um turismo mais inclusivo para pessoas 60+, com conforto, segurança e dignidade. E a palavra dignidade aqui é central. Não se trata de fazer favor para o velho camarada. Trata-se de planejar melhor o turismo para todo mundo.
Porque uma trilha bem sinalizada ajuda a pessoa idosa, mas também ajuda uma criança, uma gestante, alguém em recuperação de cirurgia, uma pessoa com deficiência temporária, um turista distraído, um guia apressado e até aquele sujeito jovem, forte, bronzeado e besta que acha que nunca vai torcer o pé. Um site com letra legível ajuda quem tem baixa visão, mas também ajuda qualquer pessoa tentando comprar uma experiência no celular, debaixo de sol, com internet ruim e paciência menor ainda. Um piso antiderrapante não é luxo geriátrico. É inteligência básica.
E aqui entra uma questão fundamental: turismo de natureza não pode ser confundido com prova de resistência. Natureza não é apenas escalada, corredeira, abismo, perrengue, subida sem fim e foto sorridente para fingir que o sofrimento foi maravilhoso. Turismo de natureza também é caminhada leve, observação de aves, banho de rio, jardim botânico, trilha curta, águas termais, mirante acessível, floresta com passarela, parque urbano, fazenda, praia vazia, nascer do sol, silêncio, cheiro de mato, vento na cara e aquela alegria simples de perceber que o mundo ainda não virou completamente concreto, boleto e reunião on-line.
A natureza não devolve a juventude. Mas a natureza devolve outra coisa, talvez melhor: movimento, espanto, conversa, ar, silêncio, riso, prudência e vontade de continuar. Depois dos 60, isso não é pouco. É praticamente um programa de governo, uma política pública e uma boa desculpa para cair na estrada. Consulte seu médico, escolha bem sua experiência, respeite seus limites, respeite os bichos, beba água, use protetor solar e vá. Sem pressa, mas vá.
A vida natural continua chamando.
Por Luiz Del Vigna
