Com o passar dos anos, a vida muda de ritmo. O corpo responde de outra forma, a rotina se transforma, alguns vínculos se afastam e o silêncio, muitas vezes, ocupa mais espaço do que gostaríamos. No consultório, é comum ouvir de pessoas na terceira idade que os dias parecem longos demais ou emocionalmente vazios, e isso merece atenção, não julgamento.
Esse cenário ganha ainda mais relevância quando olhamos para os dados demográficos do país. De acordo com o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), pela primeira vez na história do Brasil, há mais idosos do que jovens. Em 2023, a população com 60 anos ou mais representou 15,6% dos brasileiros, ultrapassando os 14,8% das pessoas entre 15 e 24 anos. Em pouco mais de duas décadas, o número de idosos praticamente dobrou, passando de 15,2 milhões em 2000 para cerca de 33 milhões em 2023. Esses números reforçam uma realidade incontestável: falar sobre saúde emocional na terceira idade deixou de ser uma pauta futura, é uma urgência do presente.
Cuidar da saúde emocional nessa fase não significa negar perdas ou mudanças. Acredito que seja aprender a lidar com elas de maneira mais consciente, preservando autonomia, dignidade e sentido de vida. E, muitas vezes, esse cuidado começa em atitudes simples, possíveis e profundamente eficazes quando praticadas com regularidade.
A gentileza, por exemplo, tem um papel essencial. Ser gentil com os outros, mas principalmente consigo mesmo, ajuda a reduzir sentimentos de culpa, rigidez e autocrítica excessiva, comuns após a aposentadoria ou diante das limitações físicas. O respeito no trato cotidiano também fortalece vínculos e cria ambientes emocionalmente mais seguros.
Aprender a não agir por impulso é outra habilidade importante. Emoções como irritação, tristeza ou ansiedade podem surgir com mais intensidade quando há dor física, solidão ou mudanças na rotina. Pausar, respirar e refletir antes de reagir favorece escolhas mais tranquilas e reduz conflitos desnecessários.
Colocar-se no lugar do outro, filhos, netos, cuidadores, amigos, ajuda a melhorar relações familiares, muitas vezes marcadas por diferenças de gerações. A empatia permite conversas mais respeitosas e diminui a sensação de incompreensão, tão relatada por pessoas mais velhas.
O equilíbrio emocional também passa por reconhecer limites reais. Comparar-se com o que se fazia no passado costuma gerar frustração. O corpo muda, e aceitar esse processo com cuidado e respeito é um passo importante para preservar a autoestima e a saúde mental.
Manter a iniciativa é um fator protetor importante nessa fase da vida. Buscar atividades, fazer convites, sair de casa quando possível ou mesmo organizar pequenos compromissos dá ao dia uma estrutura emocional. O isolamento prolongado, por outro lado, está diretamente associado ao aumento de quadros depressivos.
Cuidar das relações é tão essencial quanto cuidar do corpo. Ter com quem conversar, trocar experiências e rir fortalece a memória, o humor e a sensação de pertencimento. Ao mesmo tempo, é importante lembrar: cuidar dos outros não pode significar esquecer de si.
Reservar momentos de lazer e prazer ajuda o cérebro a se manter ativo e estimulado. Pode ser uma caminhada leve, uma leitura, música, artesanato ou qualquer atividade que traga satisfação. O prazer saudável não tem idade.
A prática de exercícios físicos, respeitando as condições individuais, contribui para a liberação de substâncias ligadas ao bem-estar e melhora do humor. Movimentar o corpo, mesmo que de forma leve, auxilia a manter autonomia, disposição e qualidade de vida.
Envelhecer com saúde emocional não é sobre fazer mais, mas sobre fazer melhor. Pequenas atitudes diárias podem ajudar a atravessar essa fase com mais equilíbrio, conexão e sentido. Em um país que envelhece rapidamente, cuidar da saúde mental na terceira idade é também uma forma de garantir qualidade de vida, presença e dignidade ao longo do tempo.
Por:Priscila Gasparini Fernandes, diretora da Clínica Seu Equilíbrio, psicanalista com especialização em neuropsicologia, além de musicoterapia e psicopedagogia da metodologia Applied Behavior Analysis (ABA)





