Fibromialgia: quando a dor não é visível

É comum que pessoas com Fibromialgia passem anos em busca de um diagnóstico, ouvindo que sua dor não é real e que não passa de “frescura”. Essa peregrinação médica, além de desgastante, amplia o sofrimento físico e psicológico.

A Fibromialgia é caracterizada por dor que se manifesta como acometendo as estruturas musculoesqueléticas, de forma generalizada e persistente. No entanto, ela não se limita à dor. Trata-se de uma síndrome que envolve alterações no processamento da sensibilidade pelo sistema nervoso central, em todo o seu espectro.

De acordo com a Sociedade Brasileira de Reumatologia (SBR), cerca de 3% da população brasileira convive com a Fibromialgia. A condição é mais frequente em mulheres: a cada 10 pacientes, de 7 a 9 são do sexo feminino, principalmente na faixa etária, entre os 40 e 50 anos.

Historicamente, em 1904, o neurologista britânico Sir William Gowers utilizou o termo “fibrosite”, acreditando que a dor estivesse associada a um processo inflamatório que acometeria ou músculos. Hoje sabemos que não há uma inflamação detectável. Assim, o termo Fibromialgia, do latim fibra (tecido fibroso) e do grego mys (músculo) e álgos (dor), foi cunhado.

A Fibromialgia está relacionada a uma alteração no processamento da sensibilidade e da dor. Atualmente acredita-se ser um distúrbio na forma como o cérebro interpreta os estímulos sensitivos não dolorosos e os dolorosos. Isso significa que há uma disfunção no processamento central da informação, da propagação das informações e uma deturpação sensorial.

Muitas pessoas acreditam que o estresse ou o estilo de vida sejam as causas da Fibromialgia. Na realidade, estresse, estilo de vida e as condições sociais não são os responsáveis por provocar a Fibromialgia,  mas a influenciam significativamente quanto a intensidade e a evolução dos sintomas.

Sintomas: Os sintomas da Fibromialgia não são somente dor generalizada e difusa; uma dor que se espalha pelo corpo que não se consegue localizar. Quem sofre com essa doença, muitas vezes, leva tempo para identificar e ter o diagnóstico definido. Essa demora, juntamente com o impacto físico, causado pelas dores constantes; e o impacto psicológico por não ter sua queixa reconhecida, levam a grande maioria de pacientes aos transtornos de ansiedade e ao quadro de depressão. É comum que o paciente ouça comentários do tipo: “é estresse”, “é exagero”, “é frescura”.

Há uma série de repercussões no corpo, como por exemplo: alterações do ritmo de sono, alterações do hábito intestinal, alterações na sensibilidade à luz, a sons, às variações na temperatura ambiente – uma disfunção percepção de sensibilidade, queda de cabelo, mudança da oleosidade da pele, fadiga crônica; ou seja, é uma manifestação que acomete o corpo todo, inclusive com a dor.

Muitas pessoas me perguntam qual médico procurar em caso de suspeita de Fibromialgia. Hoje em dia o diagnóstico de Fibromialgia pode ser dado por todas as especialidades, sendo o mais habitual pelo reumatologista e neurologista/neurocirurgião que atuem na área de dor, pois médicos dessas especialidades têm capacitação e experiência para lidar com a doença.

Há condições e critérios que levantam a suspeita da doença e depois sua evolução e cuidado dependerá de exames complementares para excluir outras possibilidades.

Os exames ainda são pouco específicos para fibromialgia, pois não temos nenhum marcador biológico e a medicina ainda tenta entender mais sobre esta enfermidade.

Por exemplo: há várias outras doenças como inflamações intestinais, doenças reumatológicas, doenças neurológicas e alterações hormonais que podem causar sintomas parecidos com os da Fibromialgia e que precisam ser investigados para segurança na definição do diagnóstico.

Por isso, o ideal é que os exames sejam feitos conforme a apresentação clínica e o estado da pessoa.

Apesar de não haver cura para Fibromialgia, até o momento, um tratamento bem conduzido é eficaz para o controle dos sintomas, para melhora e resgate da qualidade de vida do paciente. É fundamental haver uma abordagem multidisciplinar, por se tratar de uma doença com tantas repercussões. Sendo o ideal incluir atividades físicas regulares (considerado a parte fundamental do tratamento), adequação dos hábitos alimentares, terapias para melhorar a qualidade do sono, acompanhamento psicológico e de saúde mental, medicamentos moduladores da sensibilidade e da dor.

Analgésicos potentes, como a maior parte dos opioides, incluindo a morfina, tem pouca ação de alívio da dor nessa doença. Com o acompanhamento adequado, é possível manter uma vida alegre, ativa e produtiva. O tratamento contínuo é essencial para estabilização do quadro e redução das crises.

Por Dr. Kleber Duarte, Neurocirurgião – com quase 30 anos de experiência na área de neurocirurgia funcional e dor. Atualmente é coordenador do Serviço de Neurocirurgia para Saúde Suplementar e Neurocirurgia em Dor do Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da USP. 

 

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